Ex-São Paulo conta como é jogar com Riquelme: 'Se não gosta de você, nem te olha. Se gosta, briga até pelo seu contrato'

Juan Román Riquelme, um dos maiores meias da história do futebol, pendurou as chuteiras em 2015. Dificilmente alguém como ele voltará a surgir em breve.

E quem atuou com ele sabe que o eterno camisa 10 foi muito mais que um jogador.


Foi um ídolo, um ícone, um craque inigualável. Caladão, temperamental, genial. Capaz de resolver jogos sozinhos. E também de fazer o vestiário rachar e entrar em combustão.

Um cara que era mais respeitado até do que o presidente do clube.

O meia Marcelo Cañete o conheceu bem. Hoje com 26 anos e atuando pelo Libertad, do Paraguai, o ex-meia do São Paulo era chamado de "novo Riquelme" quando surgiu no Boca Juniors, em 2008, justamente quando o meia havia acabado de voltar do Villarreal-ESP.

"Ele só me chamava de 'Tchelo'. Sempre gostou muito de mim quando eu era moleque e estava começando no Boca. Ele já me conhecia desde a base, porque saía muito na imprensa argentina que eu seria o sucessor dele no Boca", conta Cañete, ao ESPN.com.br.

"Ele levava a molecada da base para almoçar e conversar. Era um cara que gostava da companhia dos mais jovens e de nos dar muitos conselhos para a carreira. São coisas que ouvi atentamente e não esqueço até hoje", acrescenta o meio-campista argentino.

Cañete, que no Brasil também passou por Portuguesa, Náutico, São Bernardo-SP e CRB, garante ter guardado todas as lições de Riquelme. Uma em especial: como ser protagonista em campo.

"Foi o melhor com quem joguei na carreira, e, pelo fato de jogarmos na mesma posição, ele tinha um carinho especial por mim. Uma das coisas que não esqueço que ele me disse foi: 'Tchelo, para ser camisa 10, você precisa ser protagonista. Precisa pedir e querer estar com a bola a todo momento. Tem que ditar o ritmo da partida'", relata o meia.

"Ele dizia para eu me mexer o tempo todo e dar muitos passes para ir ganhando confiança ao longo do jogo, mesmo que fosse um passe curto, que não irá fazer a jogada do gol. Isso me marcou e desde então eu sempre procuro seguir as lições dele", ressalta o armador.

Cañete jogou no Boca até 2010, quando foi emprestado à Universidad de Chile. Na equipe de Santiago, explodiu de vez e chamou a atenção do São Paulo que o contratou em 2011. Diversas lesões, porém, o impediram de ter uma passagem melhor pelo Morumbi.

Já Riquelme teve três passagens como jogador xeneize: 1996 a 2002, 2007 e 2008 a 2014. Entre seus títulos mais importantes aparecem cinco Campeonatos Argentinos, três Libertadores e uma Copa Intercontinental, na qual acabou com o Real Madrid no Japão.

"Ele é o maior ídolo do Boca. Disso não tenho dúvida", resume Cañete.

No exterior, Riquelme defendeu Barcelona e também o Villarreal, que conduziu a dois títulos da extinta Copa Intertoto e também à semifinal da Uefa Champions League. Pela seleção argentina, foi medalhista de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim 2008.

Ele encerrou a carreira jogando pelo Argentino Juniors, ajudando a levar a tradicional equipe alvirrubra (a mesma que revelou Diego Maradona) de volta à primeira divisão.


Se jogar com Riquelme era fácil, por conta da incrível qualidade técnica do meia, a vida ao lado do craque fora dos gramados nem sempre era fácil. Durante a carreira, ele teve um histórico de desentendimentos com vários atletas, inclusive com Martín Palermo, outro grande ídolo do Boca, com quem formou parceria vitoriosa e também conflituosa.

Apesar disso, sua palavra era respeitada por todos no clube. Todos mesmo.

"Ele era o líder do vestiário. Quando ele falava, todos tinham que ouvir. Isso era muito marcante, especialmente para os mais jovens. Quando o Riquelme falava, até o presidente do Boca tinha que ir embora. Era uma liderança muito positiva", exalta Cañete.

E quando dizem que ele "mandava" no Boca, nem é muito exagero...

"Teve uma vez que estávamos concentrados no sábado e íamos jogando domingo. Descemos para o almoço no hotel e demos falta do Riquelme. Então, olhamos para a TV e lá estava ele de macacão de corrida, dando entrevista e pronto pra correr ne carro (risos)", lembra.

"Foi bem engraçado. Ninguém estava entendendo nada, porque era pra ele estar na concentração com a gente, e do nada ele foi para essa corrida acompanhar um amigo dele que era piloto. Depois ele voltou normalmente para o hotel e jogou a partida como se nada tivesse acontecido (risos)", sorri o meia, que está em sua segunda temporada no Libertad-PAR.

Cañete também conta que Riquelme é extremamente generoso e adora presentear os garotos mais humides da base do Boca com todo o material esportivo que precisarem.

Quando o santo de Román não bate com o de alguém, porém, é melhor sair da frente.

"Ele tem uma personalidade muito forte. Se não gosta de você, esquece, nem te olha na cara e nem te cumprimenta. Mas, se gosta, faz de tudo por você. Briga até pelo seu contrato! Te dá conselhos, te leva para almoçar, jantar e compra tudo o que você pode precisar. E se ele achar que a diretoria tem que renovar seu contrato, vai lá brigar com os caras por você. Ele inclusive fez isso por mim", revela o ex-jogador do São Paulo.

"Como o Riquelme era patrocinado pela Adidas, sempre trazia chuteiras para a molecada e também tênis e roupas de treino. Se você conversava com ele e diz que estava precisando de algo, ele providenciava na hora. Foi um cara especial, um 'paizão' pra nós", encerra.