Deslocamento de 40 horas e CT a 6 mil km de casa: conheça o time que mais viaja no mundo

Diego Carlos031018Equipe da cidade russa de Vladivostok, no extremo leste do país, encara fuso horário, voos longos e muitas conexões

Imagine se um time da capital paulista tivesse a cada rodada no Campeonato Brasileiro, como visitante, ter de encarar um voo de nove horas, como é o caso, por exemplo, do deslocamento de São Paulo até Orlando, nos Estados Unidos. Pior ainda, se precisasse se submeter a um fuso horário de sete horas de diferença para disputar uma partida em Baku, no Azerbaijão. Parece absurdo até para os padrões do futebol brasileiro, mas tais dificuldades são rotineiras para um time russo da segunda divisão. Localizado na fria e distante Sibéria, o Luch Vladivostok tem como um dos maiores orgulhos de sua trajetória ser o clube que mais viaja no mundo.

País mais extenso do planeta, com um território que é dobro do tamanho do Brasil, a Rússia impõe ao Luch a cada rodada como visitante um desafio logístico e geográfico. A equipe da cidade de Vladivostok, localizada no extremo leste do país de Putin, gasta nove horas dentro do avião para viajar até Moscou, porém está a apenas duas horas de voo de Pequim e Tóquio. Se o elenco quiser pegar a estrada e ir até a fronteira da Coreia do Norte, andaria menos de 300 km. Mas tem de atravessar a Rússia para jogar na Segunda Divisão. 

"O Luch tinha de jogar o Campeonato Japonês, e não o Campeonato Russo", brincou em 2008 o goleiro e ex-capitão da seleção russa Igor Akinfeeev, ídolo do CSKA Moscou, ao reclamar de uma goleada sofrida em Vladivostok. Os times das principais cidades da Rússia detestam enfrentar o Luch por terem de fazer uma viagem longa e rspeitar um fuso horário de sete horas à frente da capital Moscou - o país tem 11 fusos horários. 

Para quem joga no Luch, o drama de viajar é inevitável, pois a cada jogo é preciso ter espírito aventureiro. Dos 20 participantes da segunda divisão russa, onde o clube está, 16 estão localizados na região oeste do país, em cidades que foram sede da última Copa do Mundo, como Moscou, Kalingrado, Saransk e Volgogrado. O bravo time de Vladivostok só tem um "vizinho", o SKA Khabarovsk, localizado a 800 km de sua sede.

Por isso o próprio clube faz piada da situação. O site oficial mantém atualizada a contagem da distância percorrida, dos aeroportos visitados e dos voos realizados na temporada, assim como faz relatos bem humorados de cada viagem. O deslocamento mais longo da história do time foi em abril deste ano, com 40 horas até chegar em Kursk. A epopeia teve dois trechos de trem, um voo e 11 horas de espera por uma conexão no aeroporto. Tudo isso em classe econômica. Chegando ao local de destico, precisa ainda encarar o rival em 90 minutos e depois voltar para a casa.
Além da distância, o Luch sofre ainda pelo orçamento reduzido e pela limitação de voos disponíveis das companhias aéreas so país. Por isso, mesmo se o destino for uma cidade localizada no meio do caminho até Moscou, os jogadores acabam obrigados a irem até a capital russa para fazer uma conexão. A falta de viagens em horários adequados e o preço alto de voos diretos atrapalham o rendimento do elenco.

BRASILEIROS

Os brasileiros que já vestiram a camisa amarela e azul do Luch, muita parecida com a da Suécia, se lembram com bom humor do desafio de defender a equipe. O atacante Diego Carlos, por exemplo, disse ao Estado ter vivenciado momentos divertidos pelo clube em 2012. "Os jogadores faziam piada antes de cada viagem, porque eram sempre nove horas no avião até Moscou e depois ainda tinha espera na conexão e mais outro voo de umas três horas. Uma vez uma viagem nossa de volta atrasou demais. Só chegamos na nossa cidade duas horas antes do jogo seguinte. Foi corrido", contou o jogador, que atualmente está no Mumbai, da Índia, onde a reportagem o encontrou.

Um dos maiores ídolos da torcida local é o atacante Nivaldo Ferreira. Agora no Gomel, de Belarus, ele defendeu o Luch entre 2014 e 2016. Da cidade, ele guarda boas memórias, como a bela paisagem da região costeira e os saborosos pratos de frutos do mar, porém sofreu com a rotina e o frio. "A gente jogava fora de casa e depois em vez de se recuperar do desgaste ou treinar, perdia alguns dias nas viagens para retornar. Era comum a equipe não conseguir descansar e se preparar para o jogo seguinte", relembrou. Mas o salário era razoável e isso o ajudava a continuar.

Por isso, para minimizar as idas e vindas, anos atrás a diretoria do clube resolveu colocar o elenco para morar em Moscou. O ex-meia Willer Souza, jogador do time em 2006, comentou o quanto era curioso ter uma concentração em uma cidade a cerca de 6,4 mil km de distância do estádio onde o Luch Vladivostok manda suas partidas. "O time ficava em Moscou e se tinha jogo em Vladivostok, a gente procurava viajar o quanto antes, para se acostumar ao fuso horário. Era difícil", afirmou ao Estado.

Depois de no último sábado jogar e perder em casa para o SKA Khabarovsk, o time que mais viagem na mundo terá uma maratona para a próxima rodada. No sábado, o compromisso será a 6 mil km de casa, contra o Mordovia, em Saransk. Uma das últimas idas à cidade, em 2017, o Luch levou 33 horas para chegar até lá.

fonte: esportes.estadao.com.br