Capitão do Leão da Ilha comenta situações e frustrações de 2013, conversa com Diego Felipe e Bocão e garante a permanência para a próxima temporada
Aos 27 minutos do primeiro tempo da partida contra o Vasco, pela última rodada da Série B, Marquinhos pegou a bola nas mãos. No caminho até a marca da cal, ouviu do companheiro Anderson Lopes o desejo de cobrar a penalidade, algo que eles haviam combinado na véspera. Mas não, Marquinhos é ídolo do Avaí e sabia que aquele momento lhe pertencia. Se errasse, teria peso para suportar as críticas, bem como as glórias. A cobrança no meio foi para não inventar. E mais de uma hora depois, o capitão comemorava o acesso.
Amado por muitos, odiado por tantos outros, Marquinhos não faz questão de ser unanimidade. Defende os interesses do Avaí, clube de coração. Se for preciso, reclama dos companheiros, pede mais comprometimento, como aconteceu com Diego Felipe e Bocão, que, segundo o camisa 10, deixaram-se levar pelo bom momento do Leão na Série B, com 12 jogos de invencibilidade.
Marquinhos é quase um patrimônio do clube e faz questão de reforçar suas origens. Criado em Biaguaçu, na Grande Florianópolis, jogou no exterior e em clubes grandes do Brasil, mas sem esquecer das raízes, algo que faz questão de reforçar após o segundo acesso pelo time de coração.
- Eu acho que vai ser quase impossível um jogador sem base, como eu, que saí do amador para o profissional do Avaí. Depois, fui para a Alemanha, ficar dois anos lá, jogar com jogadores de extremas qualidade e nunca perder as raízes - disse o jogador.
Em entrevista à RBS TV, Marquinhos ainda comentou sobre os sentimentos frustrados, garantiu a permanência na próxima temporada e o que esperar de 2015. Abaixo, confira a íntegra da conversa.
Sentimento antes do pênalti do acesso
Passa muita coisa, uma trajetória profissional de quase 15 anos. Se juntar desde que a gente se interessou pelo futebol são mais de 35 anos. Eu pensei em botar a bola ali. Quando eu quis sair das minhas características de cobrar pênalti eu me compliquei. Naquela hora não tinha o que inventar, era uma situação decisiva. Ou você entra para a história como salvador ou como vilão. No Brasil é assim, quando se perde acha um vilão, quando se ganha você é herói. Mas terminou da maneira mais feliz positivo, com gol e mais um acesso na minha vida.
Chegar vivo na última rodada
A gente vinha conversando, tinha que chegar no último jogo com chance. A gente tinha que vencer o Vasco e não é um qualquer na Série B, um time grande, com jogadores de qualidade e era difícil chegar com chance pelo que a gente vinha apresentando. Nosso time estava em uma descendente muito grande e depois daquele jogo do América a gente conversou, eu fiz desabafo, mas não citei nomes. Eu disse que teriam que colocar os nomes para não ficar em seis. Quando se perde, perde todo mundo. Mas é difícil isso, especialmente pela parte da torcida, que sempre vai escolher alguém.
Eu conversei com o Geninho depois, mostrei a entrevista que eu dei para ele. E disse que não falei nomes e um amigo meu gravou a entrevista e fui resolver uma situação de vestiário. Em nenhum clube que eu passei saí como traíra, ainda mais aqui no Avaí. E não era aqui eu iria sair por mal. O Geninho viu e falou que estava normal.
Conversa com Diego Felipe e Bocão
Chamei os caras que tinham que chamar, eles achavam que estavam na Série A. Eu falei com Diego Felipe e Bocão, agora posso dar nomes. Eu falei para o Diego que ele poderia ser um grande jogador, não só do Avaí, mas do Brasil pelo potencial. Falei para ele acreditar mais nele e se dedicar à carreira, subiu com Chapecoense e Criciúma e o melhor que ele fez foi um contrato com o Bahia. Os melhores contratos da minha vida eu fiz depois que subi com o Avaí. Mais dinheiro, consegui títulos nacionais e eu falei para ele não que tenha largado, mas a empolgação da idade, ser o artilheiro, tudo conspirar a favor, a gente não sabe como funciona a cabeça da pessoa. Mas foi tudo resolvido e o objetivo foi alcançado.
Reação de Diego Felipe e Bocão
Eu falei para eles. A questão de tirar eles da concentração não foi coisa minha. Se eu mandasse no Avaí, minha mãe e meu pai trabalhavam lá, meu irmão ainda jogaria lá. Eu não mando tudo isso que acham que eu mando. Eu brigo pelo Avaí e luto para vencer, lá tem divisões. O presidente preside, técnico treina, jogador joga. E a gente com a experiência ajuda, mas a última palavra não é minha. Agora se a conversa foi fundamental é fácil falar agora pelo desfecho, mas ajudou. Se perde, eu seria crucificado.
Eu tenho 33 anos, carreguei 10 do São Paulo, 10 do Zico, 10 do Pelé e a 10 do Avaí, a mais importante. Um manezinho, criado em Biguaçu e que conseguiu o acesso. Era hora de assumir, como sempre fiz. Fiz isso no Santos quando o Neymar brigou com o Dorival, ele tinha errado e fui o primeiro a entrar no quarto e falar com ele. Todos os times que passei eu conversava com todo mundo. E é da pessoa, eu assumo as responsabilidades, no Avaí a maior responsabilidade é minha. E eu tinha que assumir naquela hora. De vez em quando eu falo algo diferente, o meu linguajar e é verdadeiro. Sou emotivo, sei quando erro, peço desculpas, mas com uma derrota de 3 a 0, quando você poderia encaminhar o acesso algo teria que mudar. Trocar de treinador não era, tinha que mudar a atitude e algumas peças. Dar chance aos outros. Não são laranjas podres, mas eles se empolgaram e ainda bem que eles tinham jogadores experientes, um técnico experiente. E colocamos isso para eles, claro que ficam chateados, mas depois entenderam e o importante é que todo mundo está na história do clube.
Sentimento de desabafo com a família
Superação, até porque eu fico muito fechado. Na concentração, jogos, em casa, ela (esposa) que faz o papel de pai e mãe. Cuida da casa, da nossa família cotidiana, dos filhos. E tem gente que sabe quem são meus familiares e tinham contato com público. Às vezes chegavam em casa cabisbaixo e eu irritado com a derrota, eu fico transtornado. Não sou acostumado a pensar. Desde que eu saí de Biguaçu eu saí para vencer, não queria ficar com o bar de herança. Quando eu consegui um contrato fiz questão de levar eles comigo. Ainda tenho casa lá, minhas raízes são de lá, mas sei o sufoco que meu pai passou. Então naquele momento do acesso veio tudo, eu não lembrava e depois eu vi a imagem. Estou demorando a cair a ficha, mas ali foi um desabafo. A gente sofreu muito.
O que mais machucou desde 2013
O que mais machucou foi a falta de respeito com a gente. Eu acho que vai ser quase impossível um jogador sem base, como eu, que saí do amador para o profissional do Avaí. Depois, fui para a Alemanha, ficar dois anos lá, jogar com jogadores de extremas qualidade e nunca perder as raízes. Às vezes por causa da camisa, as pessoas perdiam até a amizade, aconteceu comigo. Eu peguei um dia, na festa do time do meu pai, e falei que era amigo deles pela pessoa, não pelas cores da camisa e nem de um símbolo. Eu sei que é legal tirar sarro, mas extrapolou. Picharam minha casa, jogavam foguete lá para dentro e eu tinha que aturar. Se eu sair na rua vou brigar, aí não vão dizer que provocaram o Marquinhos, vão dizer que o Marquinhos agrediu. E hoje, por bem ou mal, eu sou lembrado. Isso a gente foi engolindo seco.
Planejamento para a Série A
Entramos para não cair, qualquer comentarista vai dizer isso. E a gente sabe disso, todo vencedor sabe da sua necessidade. Vamos ser taxados e o jogador tem que comprar isso. Se a gente conseguir algo melhor, maravilha. Em 2009 foi assim, sabíamos das limitações e trabalhávamos. Se o orçamento é de 20, gastar 13. Se acontecer alguma coisa, você pode corrigir. O Avaí se viu estagnado em dívidas e o Zunino segurou o terreno que conseguiu desembarcar. Demorou, mas saiu e terminamos o ano tranquilo. Nunca se pagou um décimo terceiro antecipado como agora, mérito da diretoria. Se o dinheiro está no cofre da Ressacada, eles vão pagar, não tem safado. Falta algum conhecimento de futebol, mas não de honestidade. Agora tem que fazer um bom planejamento e depois fazer um time forte, em que os jogadores tenham a necessidade de vencer e não seja um time de passagem.
Campeonato Catarinense
Buscar o título é a meta, mas vai ser o maior campeonato regional do Brasil. Eu acho, é muito equilibrado. Tem os da Série A e o Criciúma, que caiu, mas vem com time forte. Tem Metropolitano, Marcílio, Inter de Lages, vou dar umas pancadas no meu irmão no Guarani, Ibirama. Só com nome e vaga na Série A você não atropela. A meta é conquistar, mas vai ser difícil.
Permanência em 2015
Eu fico, briguei até agora viajando para tudo quanto é lugar. Como diz o Joel Santana, comi carne de pescoço, agora vou deixar a picanha para os outros? Sei das minhas limitações, uns jogos sem puder ir, mas quero ajudar. Tem também o Eduardo, que não renovou, mas é o desejo dele. A gente vai estar ali para não ser o ator principal, a idade não ajuda. Agora é lançar novas peças e que a gente seja o arroz para acompanhar.
fonte: globoesporte.globo.com

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